segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


O hospital psiquiátrico é um desses lugares privilegiados, onde as pessoas podem (finalmente ou inicialmente) ser o que são ou o que gostariam de ser. Nesse lugar de transição, onde a maioria não consegue efetivar suas travessias existenciais de um ser ao outro não-ser que se apresenta sendo, é um território propício ao vice-conceito.

Talvez só o teatro existencial lá fora se aproxime dessa experiencia radical, lembrando sempre que o sanatório geral da sociedade onde estamos inseridos, sob muitos aspectos, nos obriga (ainda quando finge convidar) a representar papéis, os quais, muitas vezes nos são descabidos.

Por outro lado, existem alguma janelas que convidam a transgredir uma normalidade estranha na direção dos sonhos da singularidade. Gaston Bachelard diz assim: "(...) E é aqui que se pode captar a diferença entre as dialéticas da razão que justapõe as contradições para abranger todo o campo do possível e as dialéticas da imaginação que quer aprender todo o real e encontra mais realidade naquilo que se oculta no que naquilo que se mostra" (A terra e os devaneios do repouso, 2003). 

Foi na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG, que fui presentado (pela primeira vez) com uma tradução de um vice-conceito (um de seus aspectos é não ser traduzível, mas compreensível), esse procedimento clínico se refere a pessoa que diz uma coisa para representar outra. 

O Partilhante afirmava reiteradamente ser Jesus Cristo (lembro de uma pessoa que também acredita nisso, inclusive coloca uma 'auto imagem' em sua tela de computador), os Psiquiatras e os psicólogos tinham certeza de sua loucura! Nessa época, a única que o compreendia melhor era a Artista Plástica, a qual era desconsiderada pela equipe médica. Ela ganhou força e destaque com a chegada dos Filósofos Clínicos.

Depois de algumas sessões o Partilhante, enquanto relatava sobre a cruz que carregava, fez uma referência ao fato de que nós Filósofos Clínicos, o ajudávamos a carregar esse fardo, aliviar seus sofrimentos...

Ele dizia assim "(...) as pessoas acham que sou louco. Isso não é de todo ruim, sabe ? Agora que a Filosofia chegou no hospital, finalmente tenho alguém para me ouvir, conversar, e que posso confiar... Eu sei muito bem que não sou Jesus ou o Espírito Santo! Só que as pessoas são incapazes de enxergar um palmo diante de si mesmas, olhar e escutar a minha versão das coisas...   Aqui com vocês eu posso falar abertamente sobre o fato de que sou Cristo tanto quanto todo mundo! Meu sofrimento me faz sentir as dores do profeta que andava sobre as águas. Eu não sou ele, mas me sinto como se fosse, você entende ? Também carrego a minha cruz."

Considero essa partilha um grande presente, um dos maiores que já recebi! Algo inesquecível, assim como os demais atendimentos com o método da Filosofia Clínica (que é um método libertário, ao menos como nós a compreendemos!), o qual permite acessar as pessoas em seu mundo singular, onde não existem patologias, doenças, normalidades, tão somente humanidade. 

Bachelard contribui para se entender melhor a necessidade de vice-conceito na Estrutura de Pensamento de algumas pessoas: "(...) um bom exemplo da necessidade que tinham os alquimistas de multiplicar as metáforas. A realidade, para eles, é uma aparência enganadora." (A terra e os devaneios do repouso, 2003).

Em muitos casos trata-se de um refúgio, um abrigo para resgatar forças que foram retiradas pelo mundo cotidiano. A poesia, o teatro, o cinema... também fazem algo semelhante com seus múltiplos personagens, mensagens que passam através dos seus roteiros, momentaneamente transformados em realidade, ressoando bem depois na vida cotidiana da platéia, ainda aqui com um significado e alcance único na malha intelectiva de cada um. .  

Em Filosofia Clínica é possível acessar esse segredo guardado a sete chaves na Estrutura de Pensamento do Partilhante, inicialmente com a historicidade descrita na própria voz. Assim esse algo mais costuma aparecer, inicialmente pelo dado literal, depois com os significados próprios, as traduções e demais construções compartilhadas que a interseção permita acontecer. 

(...)

Um abraço,

HS