quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Um dos segredos da atividade clínica do Filósofo, o qual mesmo quando revelado se esconde (devido ao caráter de ser singularidade), é a compreensão e manuseio adequado dos conteúdos da farmácia interna de cada pessoa.

Uma obra que auxilia esse entendimento e o fundamenta inclusive, é o texto de Jacques Derrida, na qual evidencia o alcance e a eficácia das palavras como remédio ou veneno. Ele diz assim: “(...) Sócrates compara a uma droga (Phármakon) os textos escritos que Fedro trouxe consigo. Esse Phármakon, essa ‘medicina’, esse filtro, ao mesmo tempo remédio e veneno, já se introduz no corpo do discurso com toda sua ambivalência. Esse encanto, essa virtude de fascinação, essa potência de feitiço podem ser – alternada ou simultaneamente – benéficas e maléficas” (A Farmácia de Platão, SP, 2005).

Nos exames categoriais, por exemplo, é possível detectar o uso que o Partilhante faz de sua farmácia singular. Com que propriedade e eficácia é capaz de acessar os recursos que necessita para efetivar-se existencialmente.

Muitas vezes acontece do Partilhante usar determinados conteúdos como remédio, acreditando fazer o seu melhor e, constatar em clínica, o contrário do que acreditava. Nesse caso não é raro passar por um processo desconstrutivo, em busca de melhorias a sua autogenia existencial.

Existem muitos aspectos a ser considerados sobre a farmácia da singularidade. Um deles é o fato de que, a todo movimento autogênico, equivalem mudanças significativas na vida da pessoa. As transformações podem ir da linguagem, categoria lugar, significados, buscas, até as formas de expressividade mais radical, quando comparadas às suas anteriores formas de viver e conviver.

Derrida compartilha: “(...) a escritura não é melhor, segundo Platão, como remédio do que como veneno. Antes mesmo que Thamous anuncie sua sentença pejorativa, o remédio é inquietante em si. É preciso saber que Platão suspeita do Phármakon em geral, mesmo quando se trata de drogas utilizadas com fins exclusivamente terapêuticos, mesmo se elas são manejadas com boas intenções e mesmo se elas são eficazes como tais. Não há remédio inofensivo. O Phármakon não pode jamais ser simplesmente benéfico” (A Farmácia de Platão, SP, 2005).

Nesse ponto parece existir uma aproximação entre a medicação alopática da farmácia da esquina, com a medicação contida na farmácia da singularidade do Partilhante, ou seja, não existe remédio sem contra indicação ou destituído de efeitos colaterais. Aqui me utilizo das expressões medicamento e remédio como sinônimos, ok ? (Lembrando os jogos de linguagem de Wittgenstein e a importância de se buscar o sentido que o autor das palavras concede ao seu discurso...)

(...)

Um abraço,

HS