segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Apontamentos marginais*


Em Filosofia Clínica é fundamental, de parte do Filósofo, assumir a perspectiva Partilhante, uma atividade denominada recíproca de inversão. Com esse procedimento se busca saber mais e melhor sobre a ótica desse outro com o qual se avista e interage na terapia.

Os deslocamentos intelectivos do Filósofo Clínico não se limitam à recíproca, se alternam numa velocidade que, muitas vezes, escapa a percepção dos melhores analistas. Assim é importante esse movimento de ir e vir ao mundo do outro e regressar à sua própria perspectiva, algo denominado de inversão, quando o Filósofo volta ao seu eixo existencial com a matéria-prima alcançada pelo outro Partilhante.  

Jean-Paul Sartre: "Para compreender as palavras, para dar um sentido aos parágrafos, é preciso primeiro que eu adote seu ponto de vista, que eu seja o coro complacente. Essa consciência só existe por meu intermédio; sem mim haveria apenas borrões negros sobre folhas brancas" (Situações I, 2005).

A qualidade da terapia está relacionada com a sua continuidade, natureza dos conteúdos, seu entrelaçamento tópico, o sentido da interseção..., lembrando do papel existencial do lado a lado do processo clínico. Talvez um dos maiores desafios do Filósofo Clínico, seja a busca permanente de se reinventar na dialética das sessões, ou seja, como o método não possui verdades ou tipologias 'a priori'. Sua atividade cuidadora se dá, a partir dos conteúdos que o sujeito Partilhante oferece em seu discurso existencial, pela via de uma interseção, nem sempre positiva.  

Sartre diz assim: "(...) se estou no avesso de um mundo pelo avesso, tudo me parece direito. Portanto, se eu habitasse, eu mesmo fantástico, um mundo fantástico, não poderia de modo algum considerá-lo fantástico (...)" (Situações I, 2005).

Nesse sentido esse distanciamento aproximado, no qual o exercício clínico do Filósofo acontece, se faz significativo, pois lhe permite visitar um mundo desconhecido. Desse lugar poderá trazer as relíquias narrativas com as quais vai elaborar a estrutura de pensamento de seu Partilhante. Enxergar o estranho como estranho, o usual como usual, na ótica Partilhante em relação com suas representações. Conferindo ao Partilhante, pela via da interseção e pelas construções compartilhadas, um discernimento essencial por onde consiga exercitar suas hipóteses existenciais. 

Ainda Sartre: "(...) ninguém pode penetrar no universo dos sonhos se não está dormindo; da mesma forma, ninguém pode entrar no mundo fantástico se não se torna fantástico" (Situações I, 2005). 

Um dos procedimentos que qualifica a vigilância sobre a estrutura de pensamento do Filósofo é o tópico epistemologia, com o qual efetua esse desdobramento da escuta, do olhar, da qualidade da interseção, tanto com os conteúdos que vão chegando, quanto à repercussão que eles tenham em sua própria estrutura, as buscas e demais alterações no curso do processo. 

O mergulho que o Filósofo realiza na perspectiva da singularidade do outro, lhe autoriza a efetivar aproximações com sua condição específica, nenhuma outra. Ainda quando fizer alguma relação com outros atendimentos, terá necessariamente que distinguir contextos existenciais, historicidade, padrões autogênicos...

(...)

Um abraço,

HS