quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Apontamentos Marginais*


Entre a poesia na filosofia, a filosofia na poesia, existem muito mais coisas do que a nossa vã epistemologia possa constatar. Existe uma busca por superar os estreitos limites da verificabilidade racional, suas certezas e constatações objetivas, a definição epistemológica. Não é raro se ouvir que filosofia é racionalidade. Se levássemos tão a sério essa afirmação, jamais conseguiríamos atingir o padrão autogênico e sentir compreensivamente um pensador poeta como Gaston Bachelard.

O filósofo descreve assim: "Diante das imagens que os poetas nos oferecem, diante das imagens que nós mesmos nunca poderíamos imaginar, essa ingenuidade de maravilhamento é inteiramente natural. Mas ao viver passivamente esse maravilhamento, não participamos com suficiente profundidade da imaginação criante. A fenomenologia da imagem exige que ativemos a participação na imaginação criante" (A poética do devaneio, 1988).

Esse deslocamento ao jardim do poeta, se oferece como ocasião de abrir novas janelinhas na percepção intuitiva do filósofo. Na terapia acontece algo semelhante, quando o filósofo clínico visita a perspectiva subjetiva existencial do partilhante. Essas idas e vindas permitem saber mais sobre esse desconhecido que se apresenta, narrativas de um devir singularíssimo. A participação de que o poeta pensador nos fala, diz respeito ao mergulho que pode acontecer, no sentido de uma co-criação entre a poesia do poeta e a poesia que surge a partir desse encontro. 

Bachelard ensina:"(...) nos conduz para além de nós mesmos, para um outro nós mesmos" (A poética do devaneio, 1988). Aqui a reflexão nos auxilia a compreender o processo dessas idas e vindas, que constitui um aprendizado sobre a estrutura de pensamento desses outros, ou seja, do outro como outro e desse outro que se anuncia como resultante da interseção. 

O filósofo tece considerações sobre o risco de um excesso de intelecto: (...) quem se entrega com entusiasmo ao pensamento racional pode se desinteressar das fumaças e brumas através das quais os irracionalistas tentam colocar suas dúvidas em torno da luz ativa dos conceitos bem associados. (...) A crítica intelectualista da poesia jamais conduzirá ao lugar onde se formam as imagens poéticas" (A poética do devaneio, 1988).

É assim que a filosofia clínica da casa da filosofia clínica vem trabalhando na formação, nos atendimentos. Qualificando a interseção entre aquilo que se pode ver e aquilo que não se pode ver, aquilo que se pode sentir, intuir, descobrir, compartilhar. Uma terapia com sabor e cor, vontade de viver, sentidos de libertação. Nesse ponto distante de outras práticas dentro da própria filosofia clínica.   

Por outro lado, um dos pressupostos da filosofia clínica iniciada por Lúcio Packter é o olhar, a escuta, a percepção e tudo mais que possa surgir na interseção entre filósofo e partilhante, inaugurando a cada nova relação, algo único - a singularidade -. Um conceito que os estudos da lógica formal Aristotélica ajudam a entender mais e melhor, ou seja, a distinção entre termos universais, particulares e singulares. 

Nesse sentido as demais abordagens conhecidas, não entendem a contradição entre essa expressão (ser singular) e conceitos como: neurótico, psicótico, esquizofrênico, histriônico... Que são tipologias fundadas em definições previamente estabelecidas. Noutras palavras, o profissional da chamada 'saúde mental' já recebe seu 'paciente' impregnado do olhar especialista, um saber-poder que o impede de enxergar os fenômenos e originalidades diante de si.

(...)
Um abraço,
HS