segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Apontamentos Marginais*


No sábado passado, no Café e Livraria Multicultura ali na cidade baixa em Porto Alegre, aconteceu a ultima edição do ano do nosso Café Filosófico Clínico. O tema dessa vez era: A clínica e o discurso existencial.

Nesse espaço privilegiado em um convívio animado pela reflexão das práticas, a diferença de pontos de vista, escuta atenta e acolhimento á essa diversidade incrível, existe um algo mais que sempre aparece. Aqui, embalados pelo olhar fenomenológico, a pluralidade narrativa acontece e se desdobra em seus inéditos discursos de singularidade. Não se deixa enganar pelos procedimentos apriorísticos da tradição, suas certezas, as tipologias. 

Tudo isso acontecendo apesar das mensagens midiáticas que tentam, o tempo todo, nos impor uma ditadura da generalização, do estereótipo, de conceitos como: normalidade, doença, loucura, patologias psiquiátricas... 

Colegas, amigos, convidados, transitaram pelas ideias, depoimentos, num exercício privilegiado de construção compartilhada, enquanto o café aquecia os corações, mentes e almas, dando um tom de casa da vó ao lugar, num encontro recheado de hermenêutica compreensiva. 

Talvez o aspecto mais significativo dessas atividades no Café Multicultura, seja o encontro de vontades e representações, uma busca para alimentar a alma, fortalecer o espírito com novas ideias, poesia, literatura, musica, filosofia clínica...

Por esse lugar tão próximo de uma Microfísica do Poder (Michel Foucault), inúmeras elaborações pessoais acontecem, dando viva voz ao que restaria desmerecido, no silencio dessas enormes lacunas onde a singularidade vivencia seus dias. Um deslize Kafkiano permite abrir janelas, portas, frestas por onde se acessam outras verdades, como a ótica dos excluídos pela loucura diagnóstica, o desmerecimento das linguagens incompreendidas.

Assim, avesso aos rituais da ditadura da normalidade, vamos descobrindo essa cidade incrível refugiada em cada um, cheia de becos, ruelas, avenidas desconhecidas... escondida nos desvãos da caricatura oficial, acolhe desmerecimentos, desvenda utopias, persiste na arte de sonhar seu paraíso perdido. 

Nesse sentido o tema deste mês introduziu a interseção da clínica e suas repercussões no discurso existencial, ou seja, como a terapia em Filosofia Clínica pode contribuir com o dia-a-dia das pessoas, tendo como ponto de partida os ensaios desconstrutivos e reconstrutivos dos encontros.

O significado das vivências e convivências no cotidiano onde cada apessoa se encontra, as palavras com as quais convive, constituindo seus dias, os aromas, sabores, cores, a musicalidade dos convívios, a busca por aprender sobre o inacreditável universo singular em cada sujeito, seu jeito de ser, motivações, aquilo diante do olhar, ainda sem palavras para se contar. 

A clínica interfere no discurso existencial e vice-versa, essa separação vale apenas para efeitos de uma tradução aproximada, pois quem tenta dizer o que acontece na hora-sessão, quando não se utiliza da ficção, encontra limites para contar sobre os eventos da terapia, seus desdobramentos na vida lá fora que acontece aqui dentro.

(...)
Um abraço,
HS