quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Fragmentos de clínica 1*


*Advertência metodológica: Esses depoimentos sobre a atividade clínica do Filósofo estão mesclados de realidade e ficção. Nesse sentido, buscam proteger o discurso Partilhante em consultório e, inclusive, desconstruir a ideia de uma terapia baseada, tão somente, na literalidade, como se fora algo retilíneo. Como se trata de fragmentos de uma única sessão, e não de uma clínica inteira, esses rascunhos privilegiam algumas especificidades de sua prática. Um fenômeno impregnado de dobras, curvas, deslizes, construções e desconstruções compartilhadas... Desejo que contribua com os estudos, análises, reflexões. HS

“(...) O que eu busco é a invisibilidade! Não venho aqui para te trazer lamúrias de eventos passados, me queixar de quem me abandonou, das minhas perdas, as memórias da ingratidão... Eu vivo para transitar em meio à multidão. Tu sabes que o futuro breve será ditado pelos imbecis e ignorantes... porque são os que mais ‘fornicam’, chegam a ‘tira cria’ com cinco, seis, ‘reprodutoras’ diferentes, até mais... depois os coitadinhos ficam zanzando por aí, até encontrar o baile funk, as mina e os mino, as gangues, o tráfico...

Eu, por exemplo, sou um traficante de ideias, como tu bem sabe, levo Sócrates e Platão de cá pra lá e de lá pra cá trago Nietzsche, Sartre, Marx... essa gente que se extinguiu cedo demais, como os dinossauros.

Venho aqui falar contigo porque já tentei Psicanálise, Psicólogo, Psiquiatra, Aconselhamento Pastoral... (aqui pensei mas não disse: e eu serei o próximo da sua lista!). Tudo louco disfarçado de médico! Como não curam as próprias loucuras, tentam espraiar loucura por todo canto, pode ? Por isso estou aqui contigo, esse negócio de Filosofia Clínica é coisa de louco assumido, né ? Diferente daqueles outros que são loucos disfarçados, passam receita, fazem diagnóstico, internam...!

Aí eu pensei assim: Se a Filosofia trata do pensamento e tudo é pensamento, então vou logo me tratar com quem sabe que não sabe, mas quer saber! Minha busca por ser invisível já fez com que eu me mostrasse bastante. Por exemplo: me meto no meio da multidão, me esfrego no povo mesmo, sabe ? Tu sabia que um dos jeitos mais eficientes de não ser um é estar acompanhado ? Na ‘turba’ tu é ‘zé ninguém’! Sozinho tem que ser tu mesmo, isso pode ser perigoso...

Eu venho aqui porque não tenho mais aonde ir! Minha mulher me trocou pelo atendente da farmácia. Ela disse que ele a ouvia como ninguém, tocava a sua alma, dizia coisas que eram remédio para ela... O psiquiatra que ela ia disse que ela tinha dois problemas na vida: Um era a sua hipocondria e outro era eu, se exterminasse um o outro ia desaparecer!! Que ela tinha de dar um fim nesse casamento!

Ainda bem que tu me escuta. Tu não fala nada também ?

FC: Sim, sim, estou acompanhando, continue, estou ouvindo você.

Isso! É disso que eu falo, as pessoas não ouvem mais umas as outras, querem apenas falar, falar, falar... Ninguém quer ouvir, se relacionar de verdade. Essa minha coisa com a invisibilidade é muito estranha. Eu explico; Quero ser invisível mas também quero aparecer de vez em quando, preciso me mostrar, divulgar minhas ideias, essas coisas... encontrar alguém para me ouvir, me sentir valorizado, sentir que não estou sozinho, apesar de querer ser invisível, entende ?

FC: Aham, sim, você quer ser invisível mas também quer aparecer de vez em quando (...)

Na tampa! Tu me entende como ninguém! Acho que essa minha terapia contigo vai longe, não sei, gosto de vir aqui falar com alguém invisível também, que aparece e desaparece na nossa frente, mas fica como um eco na nossa semana. Eu converso contigo durante a semana, troco ideias, discuto, avalio... O quê ? Já tá na hora ?

FC: Sim, continuamos na próxima.

(...)

Um abraço,

HS