segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Fragmentos de Clínica 2*



*Advertência metodológica: Esses depoimentos sobre a atividade clínica do Filósofo estão mesclados de realidade e ficção. Nesse sentido, buscam proteger o discurso Partilhante em consultório e, inclusive, desconstruir a ideia de uma terapia baseada, tão somente, na literalidade, como se fora algo retilíneo. Como se trata de fragmentos de uma única sessão, e não de uma clínica inteira, esses rascunhos privilegiam algumas especificidades de sua prática. Um fenômeno impregnado de dobras, curvas, deslizes, construções e desconstruções compartilhadas... Desejo que contribua com os estudos, análises, reflexões. HS

“(...) Minha mãe casou de novo. Agora tenho um padrasto, eu e minhas três irmãs, sendo a ultima deste casamento atual da minha mãe. Me sinto excluído, sabe ? Tenho carinho e amor da minha mãe. Das irmãs tenho uma sensação de competição, exclusão, um olhar de censura ...

Um dia meu padrasto falou que eu iria morar no porão da casa. Entusiasmado, disse que eu ficaria melhor morando no porão. Ele colocou carpete, ar condicionado, um computador maravilhoso...equipou o lugar com tudo, sabe ? Só que ele me trata como lixo. Quando chega do mercado com as compras, me chama para que eu carregue as compras, quase uma tonelada de compras, e me xinga, só falta me bater! Quando sai para passear com minhas irmãs e a mãe, nunca me leva...

Meu refugio é a escola de música, estudo lá desde os 08 anos de idade, agora tenho 18, lá passo horas lindas, as melhores do meu dia. Lá não tenho amigos, mas a música é minha amiga. O professor me entende...

Agora tenho aqui esse lugar contigo, a Filosofia Clínica. Gosto disso, um novo método, algo ainda desconhecido, como eu. Me sinto em casa aqui. Em lugares diferentes como esse eu me sinto bem. Lembra dos primeiros encontros quando eu não falava nada ? Tu me pediu para trazer minha flauta e toquei e depois falei ? Acho que foi isso, preciso tocar para depois falar, me sentir parte de alguma coisa...

Deixa eu te falar: no ultimo final de semana viajei com minha irmã mais velha ao Paraná. Lá conheci uma garota, a C. foi muito legal. Caminhamos na beira da praia, conversamos até quase o dia clarear, acho que combinamos... quero vê-la novamente. Ela me entende, não me julga, gosta de estar comigo e eu com ela. No próximo final de semana ela vem ficar aqui em Porto Alegre, vamos ao cinema, depois comer um xis, essas coisas que não tem na terra dela...

Acho que meu padrasto me compara com meu pai que já morreu, sabe ? Minha mãe diz que, com o meu crescimento, me pareço cada vez mais com ele. Talvez seja por isso que o D. tenha implicância comigo, também pelo fato de eu ser menino e minhas irmãs meninas, não sei bem... tem coisas boas de morar no porão da casa, posso tocar minha flauta sem problemas ou interrupções, posso ficar no computador o tempo que quiser.... acho que eles até esquecem de mim. Outro dia estavam almoçando e não me chamaram para comer. Isso tem se repetido algumas vezes, acho que esquecem né ? É muita coisa pra lembrar.

(...) A C. é linda, na primeira noite transamos na beira da praia mesmo, foi muito legal, algo diferente, duas pessoas numa só. Eu tinha experimentado isso apenas duas vezes e de maneira complicada, com a C. parecia que já nos conhecíamos há muito tempo. Ela sabia o que fazer, quando fazer, qual o jeito melhor... Parecia ter experiência no assunto. De qualquer jeito quero ela de novo, tive a sensação de não estar mais sozinho. Talvez ela seja a mulher da minha vida... Sinto saudades.

Gostaria de ter conhecido meu pai. Ele morreu quando eu tinha 04 anos de idade. O que sei dele minha mãe é que conta, mostra algumas fotos, sempre escondido do D. pois ele é muito ciumento e não gosta que se fale no meu pai.

Eu gosto de vir aqui, no começo tinha medo, mais medo, ainda tenho um pouco, sabe ? Lembra as primeiras vezes, quando chegava e ia direto ao banheiro ? Agora isso já passou, me sinto em casa aqui, como se fosse o meu porão.

(...)

Um abraço,

HS