domingo, 17 de dezembro de 2017

Apontamentos Marginais



Em Filosofia Clínica a divisão consciente/inconsciente inexiste, aqui se trata de intencionalidade. As interseções dos tópicos significativos na pessoa se apresentam no acordo muito íntimo da singularidade. O que não se mostra num determinado instante, dependendo do contexto dos princípios de verdade e o trânsito da pessoa por eles, pode desajustar e reajustar o padrão autogênico, deixando à mostra tópicos até então desmerecidos, marginais, desconsiderados pela anterioridade do sujeito. 

A noção de estrutura de pensamento está vinculada ao fato dos tópicos estarem relacionados, direta ou indiretamente, associados em rede, numa interseção que se desloca para dar conta das autogenias. A existência de um tópico distante do centro das atenções, por si só, já constitui uma possibilidade de, a qualquer momento, pelas circunstâncias da dialética existencial de cada um, se apresentar como determinante, impactando os ajustes com desajustes, desequilibrando as formatações anteriores.

A intencionalidade (filtro) anda muito próxima da expressividade (quanto a pessoa mantém de si na relação com os outros), seja ela uma fratura exposta ou um lindo poema existencial. Pela intencionalidade se tem acesso as vontades, representações, e tudo mais que for surgindo na vida da pessoa. 

Sobre esse impacto de múltiplos agendamentos da cultura, Roland Barthes compartilha: "(...) em mim, a cada dia, acumulam-se, sem se comunicar, várias linguagens isoladas: estou fracionado, cindido, pulverizado (o que alhures, seria considerado a própria definição da 'loucura'). E, ainda que eu conseguisse falar a mesma linguagem o dia todo, quantas linguagens diferentes sou obrigado a receber!" (Rumor da língua, 2004)

A partir desse contato plural, presente no cotidiano, quer a gente saiba, se dê conta ou não, continuam determinando, sob múltiplos aspectos, o processo estrutural de ser singular. Isso aparece nos diálogos, monólogos, ideias, pensamento, reflexões... Por onde o jeito de ser constitui-se na interseção entre um dentro e um fora em devir.

Os termos agendados no intelecto, por exemplo, podem dar pistas sobre a natureza dos convívios existenciais, as leituras, conversas, atividades práticas ou teóricas que vão recheando a malha intelectiva conhecida como estrutura de pensamento, por onde se tem um vislumbre do desenvolvimento da singularidade na relação com suas circunstâncias.

As transgressões da pessoa em relação à sua própria estrutura de pensamento, já estavam nela como possibilidade. O fato de um tópico estrutural estar distante do assunto último, não consolida isso como uma verdade inconsciente, a qual só seria acessível por vias indiretas de aproximação e entendimento. Noutras palavras, a Filosofia Clínica, além de ampliar significativamente o horizonte de humanidade do fenômeno humano, também desconstrói a ideia de que somos controlados ou dirigidos por uma força que nos pertence mas à qual não temos acesso por inteiro. A Filosofia Clínica possui um compromisso com o ser sujeito da singularidade que se constitui num cotidiano em processo de descoberta, invenção...   

O transbordamento da pessoa numa autogenia, refere-se ao acolhimento por ela, de um discurso existencial até então desmerecido, marginal, o qual, talvez, esperasse o momento de sua releitura e compreensão, de parte do sujeito que a constitui, como acolhimento ou desmerecimento. Estar pronto para si mesmo e para os outros, quanto ao tempo, lugar, interseções, pode ser fundamento para compreender a fenomenologia dos aparecimentos e desaparecimentos. 

Barthes contribui: "Ora, os desvios (com relação a um código, a uma gramática, a uma norma) são sempre manifestações de escritura: onde se transgride a norma, aparece a escritura como excesso, já que assume uma linguagem que não estaria prevista." (Rumor da língua, 2004)

Os múltiplos deslocamentos da subjetividade pelos labirintos da própria estrutura singular, costumam reivindicar um exercício cotidiano de auto descoberta, análise, entendimento das linguagens conhecidas e da sua cara metade: as expressões desconhecias, que costumam acompanhar a novidade da estrutura de pensamento se movimentando, inicialmente na forma de ideias, delírios, pensamentos, devaneios ainda sem nexo, numa antevisão de um futuro que já está aqui em projeto, hipótese ou alguma forma de existir incompreendida.   

(...)
Um abraço,
HS