quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Apontamentos Marginais


Um dos aspectos mais extraordinários, na atividade clínica com a abordagem da Filosofia Clínica em asilos psiquiátricos e, também no hospício da normalidade aqui fora, é a qualidade do acolhimento, interseção e construção compartilhada, num território partilhante impregnado de vice-conceito.

A estrutura de pensamento baseada na linguagem simbólica, utilizando o viés mítico e demais rituais próprios para vivenciar suas circunstâncias, quase sempre encontra dificuldades para se fazer entender no mundo normal, pelos profissionais que o defendem, buscam sua manutenção.

Recordo de um partilhante internado no hospital psiquiátrico em Minas Gerais, o qual afirmava ser Jesus Cristo. Elencava circunstâncias históricas, descrevia fatos, falava dos apóstolos, referia as traições que tinha sofrido, as injustiças, a cruz que carregava...

Cerca de 06 meses de convivência depois, ele traduz a representação da cruz, e seu personagem: ‘eu não sou Jesus, entende ? Isso é o meu refúgio’. A partir daí segue compartilhando suas dores e sofrimento existencial, narrando a morte prematura da filha e de sua esposa num incêndio... Como estava viajando, sentiu-se responsável por tudo, tinha certeza de que era culpa sua perder aquilo que mais amava. Sua estrutura de pensamento, nesse instante, encontrou um refúgio (dentro de si mesmo) para tanta dor. Ser louco fazia parte da manutenção desse esconderijo. Os psiquiatras me ajudam com suas pílulas...   

Para falar com ele (apesar das drogas psiquiátricas), escutá-lo, compreendê-lo, era necessário, após os exames categoriais, ajustar o padrão autogênico numa frequência próxima à dele. Compartilhar de sua linguagem e representação de mundo (pra começo de conversa). Utilizar os procedimentos clínicos de acordo com as reivindicações de sua singularidade, num contexto de desestruturação radical, muitas vezes...

Na época, assim como ainda hoje, eu pensava sobre a importância e o significado do método, e conseguia entender melhor por que a psicologia, a psiquiatria, a psicanálise não conseguiam se aproximar, entender, dialogar compreensivamente com esse fenômeno humano...

Eis alguns problemas identificados na época, no que se refere ao método: a) O distanciamento entre os profissionais da área médica tradicional, suas certezas e convicções, tipologias, medicalização da expressividade, a metodologia com intervenções pré-determinadas e com ajustes precários na relação com seus pacientes (objetos), a contenção apressada (física, medicamentosa); b) Entender as expressões da pessoa como alguma anormalidade (loucura) que precisaria retornar aos antigos padrões de ser normal, como: a relação com a família, o mundo do trabalho, as amizades... sequer cogitavam se estava em curso alguma mudança significativa, de maior alcance na subjetividade de seus pacientes, transformados, a partir de agora, em reféns da instituição psiquiátrica e do mercado das drogas lícitas; c) Uma percepção excessivamente tecnicista sobre a ação dos psicofármacos na neurofisiologia dos pacientes, uma busca por controle, submissão, exclusão da própria singularidade, para quem resistia em retornar ao lar da sagrada família, a qual, muitas vezes era a responsável por sua desestruturação e internação... Tudo dentro da lei!

Essa ousadia compreensiva na interseção com as singularidades desestruturadas, é resultante de uma atividade de dedicação integral, uma busca para testar os limites de uma abordagem clínica incrível, para além dos primeiros escritos (cadernos didáticos), os quais, inclusive, colocavam restrições ao atendimento de pessoas com raciocínio desestruturado, incompletudes discursivas, existenciais... Nesse ponto específico, os cadernos, quase seguindo a mesma linha das abordagens criticadas anteriormente.

Ernest Cassisrer ajuda a compreender esses fenômenos do vice-conceito: “(...) para Platão o mito também encerra em si um determinado teor conceitual; pois ele é aquela única linguagem conceitual na qual se pode exprimir o mundo do vir-a-ser. Também não pode haver outra apresentação que não seja mítica daquilo que nunca é, mas sempre ‘vem a ser’, daquilo que não perdura identicamente determinado, como os produtos do conhecimento lógico e matemático, mas que de momento a momento aparece como outro”. (A filosofia das formas simbólicas, 2004).

Tenho aprendido muito com os livros e com a clínica particular, mas tem sido nos atendimentos com os alienados, exilados que mais aprendo (estando eles internados em qualquer uma das possibilidades existenciais, ou não!), sobre suas circunstâncias, os desdobramentos, as conquistas, derrotas, o significado das coisas e das pessoas, a linguagem que cada um utiliza para se expressar, quase sempre em desconformidade com os dialetos da normalidade vigente.

No meu retrovisor aparece um horizonte com mais de 30.000 horas de atendimentos (e os ponteiros continuam girando). O espelho mostra uma estrutura de pensamento aprendiz. Nela vão surgindo as pontes para a interseção com o mundo dos outros, decifrando linguagens, singularidades... Vivenciando um renascimento existencial compartilhado com a pluralidade das idas e vindas. Trânsitos compartilhados pelos labirintos inéditos a se legitimar um diante do outro.  

(...)

Um abraço,

HS