quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Apontamentos Marginais*


Uma característica essencial da metodologia da Filosofia Clínica é seu caráter estrutural dinâmico. Sua forma de ‘obra aberta’ permite acolher, compreender, dialogar, efetuar construções compartilhadas de longo alcance, na malha intelectiva dos envolvidos na atividade clínica.

Esse fundamento concede uma plasticidade desde os primeiros instantes da terapia, quando, por exemplo, o Filósofo Clínico sente, percebe, conversa com o Partilhante sobre o lugar dos atendimentos.

Os exames categoriais reivindicam uma referência, um chão para conhecer apropriadamente a natureza da singularidade no processo clínico. Já nessa etapa é possível atribuir leveza e eficácia aos atendimentos. Os tópicos determinantes, quando assim constituídos, possuem um jeito próprio de se mostrar, seja pelo dado padrão, literalidade, incompletude discursiva, termos agendados... variando apenas os conteúdos com os quais se manifestam.

É importante lembrar que uma leitura da estrutura de pensamento do Partilhante possui maior verificabilidade e segurança, quando trabalhada a partir de uma historicidade com uma base lógica ampliada, ou seja, uma organização mínima no discurso Partilhante, para melhor entender, compreender o lugar de onde se desloca existencialmente. Bem assim tudo mais que vai aparecendo em seu contexto, envolvendo a pesquisa e observação já nos instantes preliminares. No entanto, não se desqualificam as demais formas de abordagem clínica, incluindo àquelas fundadas a partir de uma desestruturação continuada de raciocínio, discurso incompleto, saltos temporais...

A abordagem plástica, dinâmica da Filosofia Clínica, encontra uma referência teórica na “Obra aberta” de Umberto Eco, onde o pensador italiano apresenta um texto voltado para a estética, a qual permeia e fundamenta a Filosofia Clínica, como uma estrutura que se move e adapta às necessidades do Partilhante, ou seja, possui uma abordagem predominante ‘a posteriori’.

O autor da ‘Obra aberta’ diz assim: “(...) No fundo, a forma torna-se esteticamente válida na medida em que pode ser vista e compreendida segundo multíplices perspectivas, manifestando riqueza de aspectos e ressonâncias, sem jamais deixar de ser ela própria” (Umberto Eco, 2005).

Nesse sentido cabe evidenciar o papel existencial do Filósofo Clínico, o qual também deve estar apto a realizar esses movimentos existenciais, para além da espacialidade intelectiva, buscando matéria-prima para visualizar os níveis de interação com o Partilhante, tendo como eixo seus deslocamentos, experimentações, idas e vindas vivenciadas na clínica.

A ‘Obra aberta’ contribui: “(...) As várias interpretações, existencialistas, teológicas, clínicas, psicanalíticas dos símbolos kafkianos só em parte esgotam as possibilidades da obra: na realidade, a obra permanece inesgotada e aberta enquanto ‘ambígua’, pois a um mundo ordenado segundo leis universalmente reconhecidas substitui-se um mundo fundado sobre a ambiguidade, quer no sentido negativo de uma carência de centros de orientação, quer no sentido positivo de uma contínua revisibilidade dos valores e das certezas” (Umberto Eco, 2005).

Talvez assim se possa compreender melhor o constructo metodológico da Filosofia Clínica, como uma matriz mutante, que se desloca para acolher a pluralidade de singularidades com as quais vai manter interseção. Inclusive sobre o abismo metodológico que a distancia das demais abordagens.   
(...)
Um abraço,
HS