quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Apontamentos Marginais*


                                           
Uma das essências da atividade clínica em Filosofia é a aptidão do Filósofo Clínico em conceder um espaço vazio para o outro Partilhante preencher. Não apenas na etapa dos exames categoriais, mas durante os demais momentos do processo terapêutico, constituindo um lugar de encontro, partilha, transgressão dos limites que o aprisionam num lugar de dor e sofrimento existencial.

Essa interseção, antes de mais nada, é uma referência ao exercício que a pessoa Partilhante busca, longe de aconselhamentos, agendamentos familiares, sociais, religiosos... Um refúgio onde consiga expressar sua singularidade, sem correr o risco de ser diagnosticada ou tratada de alguma patologia inventada pelo alienista e seus colaboradores legalizados.

Saber o momento de calar e o momento de falar, como falar, utilizando, sempre que possível, os termos agendados no intelecto do Partilhante, em seu território de maior intimidade e expressão, requer método, cuidado e atenção ao fenômeno da singularidade em ação.

Roland Barthes em ‘Crítica e verdade’, contribui: “(...) escrever implica calar-se, escrever é, de certo modo, fazer-se silencioso como um morto, tornar-se o homem a quem se recusa a última réplica, escrever é oferecer, desde o primeiro momento, essa última réplica ao outro” (Barthes, 2011).

Ao Filósofo Clínico, embora nossa época não o reconheça, e isso, sob certo aspecto é muito positivo, pois temos muito lixo chancelado, apreciado, disseminando ‘doença’ e desinformação por onde passam, cabe observar, acolher, transitar, conceder aquilo que o Partilhante nem sempre encontra no seu mundo cotidiano, da forma que gostaria em seu tempo e lugar, na linguagem possível a descrever suas verdades, sonhos, buscas...

Esse desdobramento da atividade clínica é uma característica do estruturalismo, associada à analítica da linguagem, a fenomenologia, ao surrealismo dos jogos de linguagem desestruturados, presente nas entrelinhas de um cotidiano existindo.

O Filósofo Clínico, ao compor uma interseção com seu Partilhante, busca reconstituir um chão com ele, sem desmerecer seu discurso existencial, acolhendo e compreendendo sua própria versão das coisas. Nesse movimento de releitura é possível vislumbrar espaços, lugares, aptidões esquecidas ou desmerecidas, as quais podem adquirir um colorido novo, uma conformação diferente a partir das revisitas iniciadas pelos exames categoriais, bem antes dos movimentos submodais de maior alcance e autogenias posteriores.

O pensador francês compartilha: “(...) O objetivo de toda atividade estruturalista, seja ela reflexiva ou poética, é reconstituir um ‘objeto’, de modo a manifestar nessa reconstituição as regras de funcionamento desse objeto. A estrutura é pois, de fato, um simulacro do objeto, mas um simulacro dirigido, interessado, já que permanecia invisível, ou, se se preferir, ininteligível no objeto natural” (Barthes, 2011).

A descontinuidade narrativa, além de reivindicar uma emancipação perspectiva do Filósofo Clínico, também propõe um visar de contexto, esse lugar onde o Partilhante exercita seus dias e noites. Mais que uma escuta fenomenológica, cabe ao Filósofo Terapeuta a interação com essa fonte de matéria-prima, para acessar e contribuir com as dialéticas de sua reinvenção.

(...)

Um abraço,

HS