segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Apontamentos Marginais


Submodo é um procedimento clínico utilizado para qualificar a interseção entre um ou mais tópicos da estrutura de pensamento. Aqui essa atitude pode ter o sentido que a singularidade lhe atribuir, como: ativar, qualificar, desconstruir, reconstruir, adicionar, subtrair... Seu uso busca viabilizar existencialmente a pessoa.

É comum o Filósofo Clínico oferecer um submodo que seja íntimo da pessoa, algo encontrado na fase dos exames categoriais, nas narrativas da historicidade. No entanto, também não é raro se utilizar de outras conjugações possíveis, de acordo com as construções compartilhadas reivindicadas pelo Partilhante. Assim o Filósofo Clínico pode criar, inventar, elaborar tantas opções para efetivar existencialmente uma estrutura de pensamento, quantas caiba em sua realidade.

Esses procedimentos, quando aplicados de acordo com a singularidade da pessoa, tem um um alcance clínico significativo. Cabe ao Filósofo analisar e escolher o constructo submodal adequado a cada circunstância existencial, aqui se compreendendo a desconstrução do assunto último e as possibilidades de sustentação e autonomia do Partilhante, agora numa nova elaboração compartilhada pela atividade clínica.

Quando se trata de algo inédito à pessoa, embora esteja afinado ás suas necessidades estruturais, o Filósofo Clínico precisa trabalhar, além da observação do seu desenvolvimento, como um pedagogo, ensinando o manuseio desse novo recurso. Normalmente o submodo se adequa à estrutura de pensamento e, nesse sentido, o Filósofo deve estar atento, dentre outras coisas, à movimentação existencial após a introdução e exercício dessa novidade. A estrutura de pensamento acolhe e experimenta-se na interseção com o submodo que lhe é apresentada.

Dessa interação, que deve ser coordenada pelo Filósofo Clínico, pode decorrer uma melhora subjetiva da estrutura, da qualidade da interseção dos tópicos, uma qualificação existencial da pessoa de acordo com suas buscas.

O caso do submodo roteirizar, por exemplo, quando aplicado em sintonia com a estrutura que busca cuidar, possui um alcance poderoso aos movimentos dos tópicos significativos. Uma de suas formas de atuação é oferecer pequenos ou grandes relatos, na forma de uma contação de estória, ou narrativa cinematográfica ou discurso teatral, como um ingrediente capaz de levar o Partilhante em recíproca de inversão e lá, no seu território subjetivo, realizar as interseções e desconstruções necessárias. Um bom roteiro deverá possuir os termos agendados no intelecto que fazem sentido a língua do Partilhante e consiga dialogar com a estrutura de suas necessidades.  

Alguns exemplos de autogenia onde o roteirizar pode atuar: na relação entre uma busca e o que acha de si mesmo, no conflito entre axiologias e pré-juízos, numa aproximação entre emoções e papel existencial, desconstrução de princípios de verdade e acolhimento de singularidades...

Jean-Claude Carrière contribui dizendo: “Se, em certo trecho do Mahabharata, um ator inspirado nos diz: ‘eu vejo nossos elefantes na planície, de suas trombas decepadas jorra o sangue’, nenhum espectador se volta para ver os elefantes no fundo da plateia. Ele os vê, se tudo correr bem, em algum lugar dentro de si. Eles aparecem independentemente de qualquer contexto realista, trazidos à existência pelo bom desempenho do ator e pelas imagens precisas que ele nos desvela, nos obriga a escavar e a ver. Todas as imagens têm algo em comum, e ainda assim todas parecem diferentes a cada um de nós” (A linguagem secreta do cinema, 1994).

É importante lembrar que, em Filosofia Clínica não se usa submodos sem os exames categoriais, nem uma estrutura de pensamento íntegra à visão e percepção do Filósofo, ou seja, nessa metodologia não se aplica a lógica dos aconselhamentos a partir de um pressuposto saber-poder, de quem emite conselhos, ou se utiliza de ensaio-erro. Existem duas etapas fundamentais e preliminares à aplicação dos procedimentos clínicos mais avançados, como o caso do roteirizar.

O uso adequado desse recurso deve ser como um passeio por um lindo jardim florido, num dia de sol primaveril, para àqueles que apreciam essa circunstância específica, caso contrário o Filósofo poderá conseguir o contrário do que deseja.

Jean-Claude Carrière mais uma vez: “(...) todo o filme parece dizer que não há diferença, que a vida imaginária é tão real quanto a outra, e que a vida que tomamos por real pode a qualquer momento se tornar inverrossímel, absurda, anormal, perversa, levada a extremos por nossos desejos ocultos” (A linguagem secreta do cinema. 1994)

A aplicação de um roteiro, aqui a obra se refere ao cinema, o que poderia ser entendido como uma Informação Dirigida (outro submodo) se fosse o caso de um agendamento com um tema específico.

No entanto, o que nos interessa é o fenômeno do mergulho que o Partilhante realiza em deslocamento curto e reciprocidade, vivenciando circunstâncias na forma de um ensaio pessoal nos eventos do lado de lá da interseção, assim, quando retorna ao seu eixo intelectivo-existencial, pode regressar noutra perspectiva singular.

O Filósofo Clínico realiza ajustes incessantes ao foco de sua terapia, respeitando categorias como tempo, lugar, relação. Essa realidade outra na qual o Partilhante vai vivenciar novas possibilidades precisa ser construída, de preferência, com a matéria-prima dos exames categoriais.  

Quando viajamos em um livro, participamos de uma peça de teatro ou um filme, ouvimos um depoimento qualquer...; estamos vivenciando uma situação de roteiro, onde momentaneamente, nosso cotidiano fica entre parênteses, para dar lugar, voz e vez a essa outra realidade narrada diante de nós, na qual participamos como cúmplices, em ações de construção compartilhada, num território que parece saber, de forma muito própria, como acolher nossos medos, inseguranças, desenvolver nossas habilidades, emancipar horizontes, desconstruir equivocidades.

(...)

Um abraço,


HS