sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Apontamentos Marginais


Em Filosofia Clínica os princípios de verdade estão relacionados aos eventos da cultura, os quais determinam, sob muitos aspectos, o direcionamento e as pretensas escolhas de cada pessoa, mergulhadas num determinado contexto histórico, onde aprendem o que é certo e o que é errado, possuem  uma língua materna, conhecem as noções de lugar, tempo, espaço, convivência.

Os rituais que embalam a vida em sociedade estão impregnados de verdades subjetivas, conhecidas como pré-juízos, os quais dependem de uma certa harmonia e associação para caracterizar um princípio de verdade.

Nesse sentido os embates cotidianos acerca de economia, política, educação, saúde, moral, etc.etc..., deveriam constituir um ambiente de convívio com as diferenças, estas, nem sempre, respeitadas em seu devir existencial, especificamente quando derrotadas através de alguma lei ou decreto das forças predominantes em determinada época da história. 

Os princípios de verdade governam a vida cotidiana. Essa forma de poder, nem sempre é constitucional, oriunda de alguma espécie de poder instituído, costuma, bem mais, ser uma consequência das ideias, costumes, crenças, da maneira que um povo vai elegendo para viver seus dias, seja através de suas práticas cotidianas ou na escolha de seus governantes. 

Michel Foucault contribui: "Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não ser dizer não, você acredita que seria obedecido ? O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso! Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir" (Microfísica do Poder, 1990).

A trama discursiva, preliminarmente oferecida em alguma tribo específica, se tiver condições para emancipar e sustentar seu ponto de vista, possui grande chance de se tornar um princípio de verdade, ou seja, um elemento robusto de condução e sustentação social. 

Assim é comum, para cooptar simpatizantes, normalmente a-críticos, a-reflexivos, conceder alguma espécie de sedução, para atrair e manter essa verdade subjetiva, anteriormente pertencente a determinada casta ou grupo social e, posteriormente, como resultante do embate social, se for um discurso apto a cooptar vontades, dirigir, ordenar, educar os demais integrantes do espaço social.  

Foucault ensina; "A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Casa sociedade tem seu regime de verdade, sua 'política geral' de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; As técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro" (Microfísica do Poder, 1990).  

Essa fala do pensador francês leva a pensar, dentre outras coisas, sobre o significado de, num país como o nosso, se dar tanta importância a desinformação, ao desmerecimento da educação, pesquisa, leitura, estudos de uma forma geral, os quais poderiam contribuir para qualificar os princípios de verdade, traduzir, harmonizar, questionar, refletir e acolher a diversidade presente no convívio das singularidades, hegemônico ou não.

(...)

Um abraço,

HS