domingo, 4 de fevereiro de 2018

Apontamentos Marginais


Na busca pelo entendimento das múltiplas formas de expressividade, se destaca a necessidade dos deslocamentos da recíproca e da inversão, numa perspectiva de se associar, ainda que provisoriamente, á estrutura de pensamento desse outro sob observação. Ao regressar ao seu eixo intelectivo existencial, o Filósofo Clínico traz consigo um vasto repertório de conteúdos, informações sobre o contexto da singularidade Partilhante, recém visitada e sob autorização.

Ernst Cassirer diz assim: “(...) toda forma de espírito verdadeiramente original cria a forma linguística que lhe é apropriada”. (A filosofia das formas simbólicas, 2001). Essa reflexão tem muito a ver com a Filosofia Clínica da singularidade, ou seja, a incessante busca do Filósofo pelas estruturas narrativas do sujeito Partilhante, tenham elas a fonte que tiver, os desdobramentos linguísticos que puder conceder...

Uma procura pelas frestas dessas incógnitas proferidas, por onde cada pessoa, quando assim se estruturou no curso de sua vida, pronuncia suas razões e desrazões, pode conceder uma visibilidade aos conteúdos de maior significado.

Assim a Filosofia Clínica como método (exames categoriais, estrutura de pensamento, submodos), se aproxima dos referenciais da Antropologia. Não seria errôneo dizer que a Filosofia Clínica é uma Antropologia, sentença proferida pelo Filósofo Clínico Pe. Nivaldo Alves, quando do Primeiro Encontro Nacional de Filosofia Clínica em Florianópolis/SC.

Existe um roteiro próprio em cada pessoa, descrito numa linguagem, a qual, embora se utilize de um vocabulário conhecido, distorce solenemente seu significado, em virtude de sua caminhada existencial, onde um jeito único se desenvolve, em alguém sobrevivendo desta ou daquela maneira.

Cassirer ensina: “(...) se o conteúdo e a expressão do conceito não dependem da matéria que compõe as diversas representações sensíveis, e sim da forma de sua combinação, cada novo conceito da linguagem representa uma nova criação do espírito”. (A filosofia das formas simbólicas, 2001).

Ora, numa sociedade impregnada de hipocrisia, por exemplo, cabe, como recurso de sobrevida: o enlouquecimento, o faz de conta, o distanciamento do aqui e agora, como a expressividade de uma contradição com as lógicas do falsete, da manipulação, do jogo, como maneira de conter, dirigir, se apropriar da vida das pessoas como se fosse objetos, algo comum em países de forte vocação colonial como o Brasil. O sistemático desrespeito às singularidades.

Ao ingressar na representação alheia, o Filósofo Clínico se abastece de um rol de matéria-prima, para conseguir acolher, compreender, estabelecer alguma interseção de ajuda e cuidado.

O autor da Filosofia das formas simbólicas diz algo mais: “(...) a transformação em conceitos do material da percepção interior e das sensações depende essencialmente da faculdade individual de representação do homem, e esta é inseparável da sua língua” (A filosofia das formas simbólicas, 2001).

A forma ou o jeito com que cada pessoa lida com o mundo, sua representação singular, a qualidade da relação com os princípios de verdade, as axiologias e tudo mais que for se apresentando, constitui uma estrutura de pensamento única, nem sempre compreensível aos demais integrantes da sua tribo (principalmente os mais próximos, como a família), quer ela seja de sua escolha ou não.

Nesse sentido é um fundamento importante, junto com a qualificação da interseção, compreender a linguagem na qual a pessoa se diz existencialmente. Acessar, através de uma semiose que lhe é íntima, como expressão de sua singularidade e demais motivos existenciais, aquilo que se produz e desenvolve no espírito, como um sentido próprio, muitas vezes incompreendido pelas leis sociais da generalização e classificação dos princípios de verdade (uma espécie de consenso de pré-juízos) de determinada época.

(...)

Um abraço,

HS