segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Apontamentos Marginais


 

Nesses apontamentos sobre o impacto e a rejeição dos novos paradigmas pela ciência normal, se destaca a busca – a qualquer preço – de um saber estabelecido, em manter suas referências, sustentar credenciais, impor limites ao que se pode ou não se pode descobrir, o que vale e o que não vale a pena conhecer... Para isso, no caso das ciências humanas, acontecem alianças com institutos de tecnologia, indústria farmacêutica, hospitais, escolas, e quem mais vier para referendar seus pressupostos.

Um exemplo conhecido é a educação, onde se oferecem inúmeros recursos multimídia, salas confortáveis a professores e alunos, enquanto esses possuem questões e problemáticas que passam ao largo do bem estar material. Assim não é raro na escola pública (que um dia já foi referência positiva), se encontrar uma sala de aula recheada de tecnologia e alunos passando fome, professores com salários mínimos, atrasados... Na escola particular os problemas são de outra natureza, se encontra fartura tecnológica, professores bem remunerados, alunos bem alimentados, muitas vezes com enorme variedade de problemas familiares, com repercussão no dia-a-dia escolar.

A ciência normal se ocupa com a manutenção e desenvolvimento de seu paradigma. Sua prática traz consigo a matriz de seus limites, dessa forma produz matéria-prima para as crises que irão gerar os novos modelos.

Outro exemplo é o hospital psiquiátrico, instituição que vem se mantendo, com o apoio da desinformação da população, o conceito de doença psiquiátrica ou loucura e os lucros faraônicos da indústria farmacêutica...

Nesses hospitais particulares (os asilos públicos são depósito de pessoas) de internação e correção, não faltam camas confortáveis, comida de qualidade, atividades ao ‘ar livre’, etc... No entanto, em uma zona de penumbra jamais revelada por inteiro, se pode constatar nesses centros de ‘tratamento’ qual a metodologia utilizada, seu fundamento, intervenções, as quais já fizeram muitas vítimas, como: internação involuntária, eletrochoque, choque insulínico, lobotomias, banhos quentes e frios... para recompor, converter ideologicamente os questionadores e divergentes.

Lembrando a con_sagrada medicação psiquiátrica - seus usos, abusos, distorções, efeitos colaterais – e sua competência para transformar pessoas em vegetais, e, ainda, provocando aquilo que promete ‘curar’!

Thomas Kuhn ensina: “(...) podemos facilmente começar a perceber por que a ciência normal – um empreendimento não dirigido para as novidades e que a princípio tende a suprimi-las – pode, não obstante, ser tão eficaz para provocá-las” (A estrutura das revoluções científicas, 2013).

Os imbróglios envolvendo novos paradigmas, no que se refere as questões humanas, parecem encontrar maior resistência de parte da ciência normal. Por exemplo, as crises que poderiam anunciar a possibilidade de novos olhares, percepções, mudança no referencial médico psiquiátrico, são tratadas como: doença, loucura, internadas, medicadas, impondo um regresso ao que a pessoa (paciente) busca superar com sua crise. Caso essa adequação não seja possível, ela será destituída de cidadania, internada, medicada, tratada, a partir de agora, como ‘paciente psiquiátrico’

Lembrando que diagnósticos psiquiátricos não tem o respaldo de exames laboratoriais! Isso significa, dentre outras coisas, que esses pareceres são subjetivos, baseados em classificações distanciadas da singularidade. Eis o padrão da “cura psiquiátrica”, denunciada pelos próprios psiquiatras, alinhados em movimentos como: a anti-psiquiatria, a não-psiquiatria.

Um dos aspectos mais significativos nessa relação entre a ciência normal e a ciência extraordinária, é a manutenção de uma zona de conforto, de boa parte dos profissionais do modelo estabelecido, hegemônico. Bem assim, não é raro encontrar cientistas que abandonam suas práticas, por não suportar o convívio com as contradições e crises próprias de movimentos existenciais de ressignificação.

Thomas Kuhn compartilha: “(...) embora seja improvável que a história registre seus nomes, indubitavelmente alguns homens foram levados a abandonar a ciência devido à sua inabilidade para tolerar crises. Tal como os artistas, os cientistas criadores precisam, em determinadas ocasiões, ser capazes de viver em um mundo desordenado” (A estrutura das revoluções científicas, 2013).

Uma abordagem que não descarte as contradições, é fundamental para conhecer e testar seus pressupostos, dialogar e compreender as instâncias que vão aparecendo como 'anomalia' em determinada área científica. Nesse sentido, é possível encontrar muita fundamentação teórica em Descartes, Kant, no que se refere a busca por respostas a partir de questões pré-determinadas no âmbito da ciência normal.

É possível ser o confronto de ideias e práticas da ciência normal com a ciência extraordinária, o ingrediente fundamental para saber mais e melhor sobre uma e outra abordagem, analisar, refletir, comparar, qualificar estudos e práticas, desenvolver uma integração entre os avanços da tecnologia com o fenômeno humano, ainda, sob muitos aspectos ilustre desconhecido.  

(...)

Um abraço,

HS