quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Apontamentos marginais



Um paradigma é um modelo adotado ou aceito por determinada comunidade científica, nele se desenvolvem estudos, pesquisas, aperfeiçoamento de seus pressupostos de fundamentação teórica e prática. Até inovações são admitidas, desde que não o contradigam por inteiro, não desmereça sua matriz conceitual de ciência normal.

Cabe lembrar que um paradigma, um dia foi novidade, subversivo, contraditório com seus antecessores, até o momento de seu entendimento, aceitação, cooptação por determinada tribo científica (universidade, escola, institutos de pesquisa...).

Nessa direção Thomas Kuhn contribui: “(...) A ciência normal não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de fenômeno; na verdade, aqueles que não se ajustam aos limites do paradigma frequentemente nem são vistos. Os cientistas também não estão constantemente procurando inventar novas teorias; frequentemente mostram-se intolerantes com aquelas inventadas por outros.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013).

Esse conjunto de dificuldades impostas pela defesa da ciência normal, longe de desmerecer os novos paradigmas, servem para desafiar, testar, aperfeiçoar os seus pressupostos, diante das considerações adversas oferecidas pelo saber instituído. Lembrando que este mesmo saber um dia, também teve de superar as crises que provocou.

Outro aspecto determinante na busca por novos horizontes é a superação da estrutura de hábitos e controle sobre as pesquisas, leituras, artigos e conferências, tendo como fundamento um saber consolidado. Assim é comum se ter um tempo considerável de tranquilidade, por onde o modelo tradicional se expande, cresce na medida de suas possibilidades. Esse tempo costuma estar vinculado ao contexto do paradigma se estruturando e ao conjunto de profissionais envolvidos com suas verdades.  

No caso específico da Filosofia Clínica, uma nova abordagem clínica, no que diz respeito ao fenômeno humano, fruto do trabalho iniciado por um jovem pensador brasileiro - Lúcio Packter – médico e psicanalista, nascido em Porto Alegre. Em que pese ter passado grande parte de sua vida estudando e trabalhando em Edimburgo na Escócia, enquanto percorria vários caminhos de pesquisa pela Europa. Numa busca de amadurecimento e subsídios para suas ideias, num processo que contribuiu para o surgimento de um novo modelo de compreensão e interseção com a vida.  

Nos anos 90 em Porto Alegre, e depois noutras partes do país, o impacto do surgimento da Filosofia Clínica foi muito grande. Na capital gaúcha, por exemplo, terra onde já se proibiu Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir de visitar e palestrar; exilou gênios como o prof. Gert Bornheim, dentre outros..., por destoarem do discurso oficial da época (anos 90 do séc. XX), se disse muita coisa...

O que mais chamou atenção, nesse tempo (mais de 20 anos atrás!) foi a manifestação de alguns Filósofos, Psicanalistas, Cronistas, Jornalistas, os quais falaram e escreveram suas críticas ferozes contra a nova abordagem terapêutica. Um pouco pior: sem conhecimento de causa! Aqui cabe um parêntese (um dos fundamentos da Filosofia é conhecer, estudar, investigar, criticar (no sentido de aprofundamento, reflexão), de preferência nessa ordem...).

A Filosofia Clínica como novo paradigma, incomodou muita gente acomodada em seus departamentos acadêmicos, suas generosas bolsas de pesquisa; também setores da Medicina Psiquiátrica, os quais se sentiram ameaçados pela nova forma de entender o mundo, a representação da singularidade, uma terapia na contramão da internação involuntária, da medicalização da expressividade humana; desenvolvendo uma arte da escuta, acolhimento, compreensão, com procedimentos clínicos onde o ponto de partida é a pessoa e não o saber especialista do Terapeuta (suas leituras, estudos, experiências de consultório); outros, ainda, buscavam defender seus feudos institucionais (indústria farmacêutica, departamentos acadêmicos, publicações...), incomodados com a possibilidade dessa novidade desconstruir o que se sabia, implicando novos estudos, investimentos, reinvenção do Ser Terapeuta (não vou citar aqui os interesses econômicos envolvidos).

Transcrevo a seguir, alguns exemplos do que se dizia e escrevia na época sobre Filosofia Clínica:

- “(...) Isso não vai dar em nada! É um grupo de adolescentes sem nexo” (Pronunciamento de um destacado Professor e tradutor de Filosofia, na época lecionando numa conceituada Universidade gaúcha)

- “(...) Ora, ora, onde já se viu ?, agora até Filósofo quer dar pitaco nas coisas do intelecto (...) Saber mais que Médicos e Psicólogos, que possuem formação para tanto”  (Manifestação de uma importante cronista e escritora conhecida em todo o país)

- “(...) Imagina, agora quando tiver algum problema, basta consultar um Filósofo e ele vai dizer o que você tem de fazer” (Intervenção de outro conhecido e festejado jornalista, também ele, falando sobre algo que desconhecia)

- “(...) Inacreditável um Filósofo clinicando em cafés, na beira da praia, sentado num banco da praça” (Outro ilustre Professor de Filosofia, na época lecionando em importante Universidade)
- “A partir de hoje Filósofos podem pegar seus textos e oferecer às pessoas em crise (...)”. (Cronista de um jornal importante da capital).

Vejam que esses exemplos, com a manifestação de pessoas inteligentes e ocupando postos importantes na sociedade, apesar de desinformados, emitiam suas opiniões e tomavam posição sem conhecer mais e melhor aquilo do qual falavam! Fenômeno esse que, durante os primeiros anos da Filosofia Clínica, se repetiu em boa parte do país.

Depois disso o sonho começou a se realizar, especificamente, se expandiu a partir de uma matéria no Caderno Mais da Folha de São Paulo, onde a coordenação entrevistou alguns Filósofos Clínicos da época, leu alguns cadernos didáticos, assistiu seminários sobre o tema. Essa matéria no importante diário paulista, ajudou a esclarecer sobre o assunto, logo após, tivemos a abertura de turmas da formação em capitais como: São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Curitiba...

Interessante notar quem ia chegando nesses primeiros anos, ou seja, pessoas mais jovens, alguns estudantes universitários, também profissionais já veteranos na sua profissão, dentre outros. Muita gente talentosa, sensível, criativa, foi se aproximando da nascente Filosofia Clínica, com isso também o método inicial foi se aperfeiçoando, qualificando publicações, leituras, estudos, estágios... A clínica prosperava, o novo paradigma mostrava à que veio, começamos a ter o apoio da sociedade, a partir dos atendimentos em consultório.

Depois o sonho continuou se expandindo, com novas publicações, parcerias com universidades, hospitais, escolas, empresas... O discurso da comunidade científica, representado por professores, médicos, psicólogos, psicanalistas, engenheiros... também foi mudando. Inclusive hoje, alguns dos mais competentes e renomados Filósofos Clínicos são oriundos de outras áreas do conhecimento, que não a Filosofia.

No entanto, o dia-a-dia nos mostra que há muito por fazer! Ainda se encarceram pessoas a guisa de tratamento; crianças são mutiladas, medicalizadas em sua expressividade pelo despreparado das escolas, professores; as universidades repetem seus eternos programas de ensinar a mesma coisa, com algumas poucas variações, quase sempre no que se refere aos avanços da tecnologia...

(...)
Um abraço,
HS