segunda-feira, 5 de março de 2018

Apontamentos Marginais


Um novo paradigma possui especificidades que o destacam em meio aos princípios de verdade onde aparece, se instala e tenta compartilhar seus anos iniciais. Nesse ponto a categoria tempo, além de outros atributos, pode contemplar o discernimento entre aquilo que realmente inova, acrescenta, daquilo que não passa de um pequeno e breve ajuste, acumulação em cima de outros métodos já existentes.

A Filosofia Clínica é um desses novos modelos. A sustentação para isso vem das constatações de um consultório com mais de 30.000 horas de atendimentos, numa atividade de dedicação integral ao novo paradigma, sustentando sua matriz metodológica e contribuindo para desenvolvê-la para além dos cadernos didáticos iniciais.

Acredito que tal coisa seria impossível sem um contexto de atendimento robusto, aliado aos estudos, leituras, pesquisas, colóquios... referências permanentes e diálogo com colegas, amigos, desta e demais áreas do conhecimento como a Medicina, Filosofia, Psicanálise, Psicologias... Numa conversação interdisciplinar, com algumas pessoas raras que se encontram pelo caminho. Verdadeiras obras de arte em suas áreas de atuação, com as quais tenho aprendido e à elas devo muito!

Como uma fonte de inspiração, escolho essas palavras de Thomas Kuhn: "As revoluções científicas iniciam-se com um sentimento crescente, também seguidamente restrito a uma pequena subdivisão da comunidade científica, de que o paradigma existente deixou de funcionar adequadamente na exploração de um aspecto da natureza, cuja exploração fora anteriormente dirigida pelo paradigma"(A estrutura das revoluções científicas, 2013)

Assim é possível entender a aproximação de pessoas, muitas vezes de áreas diferentes, em busca de qualificar suas práticas, fortalecer suas leituras, desvendar, compartilhar novos caminhos. Sua alegria de ser, viver e conviver costuma ser contagiante. As dificuldades esparramadas pelo caminho não as desestimulam. Motivam!

Essa espécie de gente possui características singulares, destacam-se dos demais profissionais de suas respectivas áreas, por um conjunto de habilidades, talentos, capacidades, como: aptidão para criar, inventar, perscrutar e acolher novidades sem preconceito, amarras, espírito aventureiro, inconformidade com as certezas, iconoclastia, inquietude existencial...

A partir de uma experiência inicialmente solitária ou num grupo de estudos específico, muita coisa pode acontecer, via de regra, a partir de uma torção na visão de mundo, por si só, muita coisa já vai mudando. Uma nova referência se mostra, não raras vezes, como algo que desafia os limites daquilo considerado impossível, inacreditável.

Thomas Kuhn diz assim: "(...) Quando mudam os paradigmas muda com eles o próprio mundo. Guiados por um novo paradigma, os cientistas adotam novos instrumentos e orientam seu olhar em novas direções" (A estrutura das revoluções científicas, 2013).

Nesse desvirtuamento precursor, o pensador do novo modelo enfrenta, além das ameaças e inseguranças internas de sua própria estrutura de pensamento, próprias de sua condição humana, ainda encara as circunstâncias de disputas sociais, econômicas, políticas de sua época.

Ainda se pode ver, nesse limiar do século XXI, muitas das fogueiras medievais, que fritavam em praça pública homens e mulheres geniais, sob acusações diversas, normalmente tidos como ameaça a vidinha acomodada nos princípios de verdade de seu tempo, lembrando de que também estes já foram outrora, revolucionários, até encontrar uma zona de conforto e aí se fixar.  

É comum esse saber visionário não encontrar outra forma de subsídio, a não ser sua própria estrutura de pensamento, a qual terá de encontrar maneiras (submodos) de prosseguir em suas buscas, formulando hipóteses, experimentações, qualificando traduções... enquanto transita pelos modelos e rituais consagrados da sua especialidade. 

Thomas Kuhn ensina: "(...) durante as revoluções, os cientistas veem coisas novas e diferentes (...) É como se a comunidade profissional tivesse sido subitamente transportada para um novo planeta, onde objetos familiares são vistos sob uma luz diferente e a eles se apregam objetos desconhecidos." (A estrutura da revolução científica, 2013).

Noutras palavras, um saber visionário se oferece ao olhar dos precursores em qualquer área do conhecimento. São pessoas cuja singularidade não cabe nos manuais e fundamentos conhecidos. Muitas vezes até, são diagnosticados como alguma patologia! Seu jeito de ser e conviver com o mundo, acolhe a novidade e o saber inédito, de um jeito próprio, nem sempre possível de descrever adequadamente.  

Um novo paradigma pode ter de aguardar um tempo significativo, até que surja alguém capaz de vislumbrar, acolher, compreender esses inéditos refugiados nas margens do que se sabe. Decifrar os códigos em estado nascente, até então, interditados por sua época.    

(...)

Um abraço,

HS