segunda-feira, 12 de março de 2018

Apontamentos Marginais*



Uma das características que me encantou na mensagem da Filosofia Clínica foi a possibilidade de emancipação da pessoa, para além dos muros classificatórios das tipologias. Sua abordagem clínica a partir da singularidade. A fundamentação teórica na Filosofia, bem como sua contribuição à luta pelo fim das ideologias da exclusão, a fabricação da loucura, a incompreensão para com a diversidade existencial humana.

Hoje, em 2018, vejo com certa decepção a postura de alguns Filósofos Clínicos, os quais, possivelmente por não suportarem uma abordagem metodológica libertária, buscam subsídios na farmacologia, neurociência, psiquiatria. Reproduzindo, sob muitos aspectos, o que já vinham fazendo as abordagens conhecidas, como: a busca por medicar expressividades, internação involuntária, sequestro da autonomia das pessoas, implemento de um espírito de rebanho acrítico e a-reflexivo, numa sociedade desprovida de meios de defesa, como a ausência de um projeto educacional eficaz, gerando descaso e passividade diante da mordaça e da ideologia dos psicofármacos.  

Desde as primeiras leituras, depois com os estágios preliminares, senti e vislumbrei que a Filosofia Clínica podia mais, tratando-se de uma metodologia aliada do fenômeno da singularidade, com o que isso venha a significar, diante de uma estrutura social que desqualifica as pessoas diante de si mesmas e dos outros de seu meio...

A Filosofia Clínica que pratico e busco desenvolver, propõe a libertação na direção do ser singular, da possibilidade concreta de uma pessoa ser alguém que só ela mesma possa ser, um projeto irrepetível para seu mundo como representação.

Michel Foucault ensina: A percepção do louco não tinha por conteúdo, finalmente, nada além da própria razão; a análise da loucura entre as espécies da doença, de seu lado, só tinha por princípio a ordem de razão de uma sabedoria natural, e tanto que ali onde se procurava a plenitude positiva da loucura só se encontrava a razão, tornando-se a loucura assim, paradoxalmente, ausência de loucura e presença universal da razão. A loucura da loucura está em ser secretamente razão” (História da loucura, 2000)

Outra vez se apresenta o discurso alienista como o precursor de toda forma de loucura, ou seja, a farmácia do hospício contém os frascos delimitadores da loucura e da não-loucura, seu grau, intensidade, disposição, de acordo com a prescrição daquele mestre dos delírios. Destinando seus projetos de atendimento a transformação de pessoas em coisas, as quais precisam ser contidas, guiadas, submetidas na jaula de uma normalidade distante de sua melhor condição singular. Nesse sentido, cooperando com a sociedade alienada que o produziu, seus representantes diplomados e demais subprodutos.

Encontrar a Filosofia Clínica foi um grande presente. Descobri, por volta dos 5/6 anos iniciais de clínica e trabalhando com formação de Filósofos Clínicos no Brasil, que sua mensagem poderia se emancipar do discurso inicial mais comportado, tinha elementos da prática clínica com o novo paradigma, que ainda precisavam ser desenvolvidos, como a superação dos limites de atendimento às pessoas com raciocínio desestruturado, por exemplo.

Nos dias de hoje existem várias escolas de formação em Filosofia Clínica no Brasil, cada uma oferecendo aos seus estudantes, uma Filosofia Clínica com as características e crenças de sua equipe de professores, supervisores. Parece que a base comum ainda é a mesma, no entanto, alguns centros de formação expressam objetivamente sua disposição de trabalhar com a farmácia alienista, em detrimento do robusto constructo teórico/prático que a Filosofia Clínica oferece.

Demonstram desconhecer o método do novo modelo cuidador. Assim não inovam, apenas reproduzem o modelo de outras abordagens, que continuam sendo meros assessores da psiquiatria, das prisões travestidas de hospitais psiquiátricos, ou seja, sem saber o que fazer com as pessoas em crise de ressignificação existencial, em alguns casos, encaminham ao alienista, o qual, também não sabendo o que fazer, medica!

Thomas Szasz se posiciona: “(...) rotular os indivíduos que se sobressaem, ou que são incapacitados por problemas da vida, de ‘doentes mentais’ apenas impediu e retardou o reconhecimento da natureza política e moral dos fenômenos para os quais se dirigem os psiquiatras” (O mito da doença mental, 1974).

Assim a Filosofia Clínica oferece um acolhimento e cuidados a partir da singularidade de seu partilhante, tendo como ponto de partida a interseção entre o Filósofo e a pessoa em clínica. A escuta fenomenológica, a historicidade oferecida na versão de seu titular, a descrição objetiva e subjetiva aos olhos, ouvidos, percepção, intuição do Filósofo, contém elementos preliminares para situar o cuidador na relação com a pessoa diante de si.

Os procedimentos clínicos, na Filosofia Clínica, também aparecem na trama discursiva do sujeito partilhante, e não o contrário, numa poção manipulada em um laboratório distante do usuário, por alguém desconhecido a condicionar o processo de desconstrução e reconstrução humana.

A Filosofia Clínica ou é libertária ou não é! Tenho notícias de alguns Filósofos clinicando pela internet, dando aulas de Filosofia Clínica pela internet... Ora, no mínimo, deveriam ser processados por estelionato! Pois contribuem para a farsa social denominada psiquiatria e seus rituais de controle, dominação, alienação social!

(...)

Um abraço,

HS