segunda-feira, 26 de março de 2018

Apontamentos Marginais*


Por volta de 2006, em Juiz de Fora/MG, tivemos o privilégio de conhecer e trabalhar com um personagem extraordinário, um ser humano invulgar: o médico Iran Rodrigues. Um grupo de amigos nos apresentou a Casa de Saúde Esperança, um hospital psiquiátrico localizado na periferia da cidade mineira.

Iran foi um precursor, médico humanista, interessado e dedicado a condição dos excluídos como poucos! Bastava ver uma mãe com seus filhos, abandonada na praça central, ou na beira dos trilhos ou parada de ônibus, que parava seu carro e levava para o hospital, onde tinham, inicialmente, casa, comida, roupa lavada,cuidados, atenção. Depois a assistência social tratava de localizar familiares, amigos ou pessoas que pudessem ajudar a incluir essas pessoas nalguma forma de vida digna. Muitas delas ficavam morando no hospital, apesar dos apelos na rádio, jornal, via judiciário...

Esse médico mineiro representa muitos outros profissionais vocacionados ao ser terapeuta, em qualquer uma das suas especialidades. Antes de qualquer outra coisa, um ser humano extraordinário, alguém capaz de 'torrar' suas propriedades para manter o hospital funcionando, devido as dificuldades em receber verbas públicas suficientes para manter o hospital.   

Foi pelas mãos do médico Iran Rodrigues, que a Filosofia Clínica teve a oportunidade de compartilhar sua abordagem cuidadora com as pessoas ali residentes, a maioria abandonada pelas famílias, poder público...

Nessa época pudemos oferecer aos alunos das turmas de Filosofia Clínica da cidade e região (Juiz de Fora, São João del Rei, Rio de Janeiro, Petrópolis...), um estágio de observação e atendimentos como nunca antes aconteceu! Tivemos voz e vez numa área historicamente interditada às novas abordagens.
Nossa busca era conviver com a realidade das internações (voluntárias ou não), do exílio, do descaso e abandono, por parte das famílias e sociedade de um modo geral. 

Os atendimentos da Filosofia Clínica eram acompanhados pelos estagiários. O diretor geral da instituição e proprietário da casa - o médico Iran Rodrigues - um visionário, um estudioso além de seu tempo, não apenas abriu as portas de um de seus hospitais, como insistiu para que os atendimentos da Filosofia Clínica fossem realizados em seu consultório particular, dentro do hospital. 

A sensação de pegar o ônibus para a Vila Ideal, trabalhar na Casa de Saúde Esperança é indescritível! Algumas pessoas não entendiam porque eu insistia em ir de ônibus, ao invés de aceitar as caronas que me ofereciam... 

Nesse período, além dos atendimentos, também atuávamos em várias atividades da Casa de Saúde Esperança. Acompanhávamos o baile semanal, as reuniões da assistência social, psicólogas com as famílias, atividades com educadores físicos, artes plásticas, passeios, exposições, carnaval...

A Casa de Saúde Esperança, localizada na Vila Ideal, foi um marco na historicidade da Filosofia Clínica, por vários motivos, lembro de dois mais marcantes: constituiu farta matéria-prima para a obra: Filosofia Clínica - diálogos com a lógica do excessos (lançada pela editora E-Papers/RJ em 2008) e, também, porque antes dessa instituição, tivemos outras experiências em hospitais psiquiátricos, asilos, instituições de periferia... no entanto, o diferencial da Casa de Saúde foi o respeito, o acolhimento de um novo modelo cuidador, algo inédito, até então! 

Essa atividade teve a duração de 05 anos, aproximadamente, até a morte de seu fundador o Dr. Iran Rodrigues (aqui o título de doutor segue a linha da tradição, e notório saber (LDB)), um médico sonhador incorrigível, muitas vezes censurado por amigos, familiares, colegas, pela forma despojada com que tratava as questões da medicina e as pessoas sob seus cuidados. 

Suspeito que, um profissional dessa estatura, dificilmente teria espaço numa escola de Medicina, ensinando aos mais jovens (verdadeiramente vocacionados à medicina!) o conceito de ser cuidador, do significado de gente cuidando de gente. Iran Rodrigues já faz parte da nossa história! Não pelo fato de ter compreendido a mensagem da Filosofia Clínica, mas por seu exemplo prático de doação, acolhimento e entrega de tudo que possuía: sua pessoa, seus bens materiais... à causa dos desmerecidos socialmente em sua cidade de Juiz de Fora.

Talvez algum dia se resgate a biografia de seres humanos extraordinários como o médico Iran da Casa de Saúde Esperança, os quais não tem espaço na mídia sensacionalista, que prefere divulgar o caos, a destruição, a barbárie, de forma continuada, em detrimento das boas coisas e iniciativas que homens e mulheres vem oferecendo, ajudando a sustentar o planeta, como um Atlas, a partir de um sonho cotidiano que se renova em suas ações pelos excluídos.

Ao médico Iran Rodrigues nossa gratidão, reconhecimento e desejo que continue semeando suas margaridas, dálias, tulipas, orquídeas... por onde for, onde estiver, recuperando territórios abandonados, refugiando em si mesmo, um jeito singular de cuidar desses jardins esquecidos.  

(...)

Um abraço,

HS