segunda-feira, 19 de março de 2018



Em Filosofia Clínica os submodos são procedimentos clínicos que buscam viabilizar uma determinada estrutura de pensamento. Via de regra podem ser encontrados na própria estrutura Partilhante, quando descreve sua historicidade ao Filósofo. 

O instante da narrativa pode conceder ao Terapeuta, elementos para acessar os modos ou maneiras pelas quais a pessoa exercita o seu devir existencial. Nessa etapa, além de acolher, entender e identificar os submodos da singularidade, cabe ao Filósofo Clínico visualizar o funcionamento, alcance, desdobramentos em seu cotidiano. Pela interseção, respeitados os limites (padrão autogênico) de cada integrante da relação clínica, a Terapia terá este ou aquele desenvolvimento.  

Um submodo, quando adequado a estrutura de pensamento de determinado sujeito, pode contribuir decisivamente para desconstruir, reconstruir, identificar, resolver, agregar, afastar, e muito mais, dependendo dos objetivos e formas de uso, identificados já na fase dos exames categoriais (preliminares). A Tradução é um procedimento, o qual, quando utilizado de acordo com as especificidades da clínica singular, pode contribuir com o bem estar subjetivo que a pessoa procura.

Basicamente a Tradução trata de transmitir, transcrever o conteúdo de uma mensagem, de uma forma para outra, utilizando tantas semioses quantas necessárias para qualificar entendimentos, viabilizar acordos, aproximações entre um discurso e outro, seja ele de natureza retórica, subjetiva, objetiva, existencial. 

Nesse sentido Wittgenstein contribui, como inspiração teórica: "(...) se o significado é o uso que fazemos da palavra, então não tem sentido falar de um tal 'encaixar-se'. Ora, compreendemos o significado de uma palavra quando a ouvimos ou quando a proferimos; aprendemo-la de um golpe só; e o que aprendemos deste modo é algo diferente do 'uso' que se estende no tempo". (Investigações Filosóficas, 1996).

O pensador ensina que existem, ao menos dois sentidos para a compreensão das palavras, ou seja, seu uso geral, compartilhado pelos princípios de verdade, aquelas palavras cotidianas utilizadas pela maioria das pessoas para um determinado entendimento e conversação, em roda de amigos, na fila do metrô, no jogo de futebol, no teatro, cinema... 

Aqui as palavras possuem um eixo denotativo de acordo com as tribos envolvidas, as quais dominam, em maior ou menor grau, o sentido das expressões do grupo social ao qual pertencem. Por outro lado, existem os usos e sentidos das expressões linguísticas, de acordo com a representação de mundo, a compreensão da singularidade, a qual nem sempre está de acordo com o dicionário das pessoas de seu convívio...

Tendo como ponto de partida as narrativas e descrições da história de vida, o sujeito Partilhante ensina ao Filósofo Clínico o uso e o sentido de suas expressões. Bem assim, quando percebe que seus conteúdos são utilizados por determinada pessoa de um jeito único, conferindo ao seu discurso pronunciado verbalmente ou ao discurso existencial, uma Tradução que somente poderá ser encontrada no dicionário da sua própria estrutura de pensamento.   

Wittgenstein acrescenta: "(...) novos tipos de linguagem, novos jogos de linguagem surgem, outros envelhecem e são esquecidos. (...) a expressão 'jogo de linguagem' deve salientar aqui que falar uma língua é parte de uma atividade ou de uma forma de vida". (Investigações Filosóficas, 1996).

Significativo lembrar que, no processo clinico da Filosofia, é fundamental entender quais os jogos de linguagem que o Partilhante realiza, por onde se desloca sua mente, seus pensamentos, como se estrutura, quais direcionamentos realiza, como funciona quando a pessoa convive com outras pessoas, conhecidas, desconhecidas, por exemplo. Como acontece o processo de busca por se ajustar ou desajustar, se fazer compreender no mundo do trabalho, dos estudos... 

O submodo Tradução poderia ser um procedimento por excelência da diplomacia, uma atividade onde frequentemente se faz necessário desenvolver uma ideia ou projeto noutra língua, envolvendo, muitas vezes, choques culturais, ingredientes que restariam profundamente contraditórios, se não fossem adequadamente traduzidos numa linguagem que faça sentido, no lado a lado da interseção. 

Existem tantas formas de Tradução quantas possam ser as pessoas que a utilizam, por exemplo: a) Pessoas que fazem Tradução para si mesmas; b) Existe quem se ocupe em Traduzir para os outros; c) Traduções intermediárias, como forma de gerenciamento de conflitos; d) Traduções entre pessoas da mesma família, grupo social, comunidade, país...; e) Tradução clínica objetivando um 'dar-se conta', enxergar 'mais e melhor' ou 'menos e melhor',

(...) 

Um abraço,

HS