segunda-feira, 9 de abril de 2018

Apontamentos marginais*


A noção de estrutura de pensamento, em Filosofia Clínica, possui, como uma de suas bases de fundamentação teórica o estruturalismo. A partir desse referencial é possível entender essa visão ampliada do fenômeno humano, que o novo paradigma oferece, ou seja, concede uma percepção universal (uma forma sem conteúdo) tendo a singularidade (sentido de uma expressividade) como interseção entre a totalidade e a especificidade. Isso acontece a partir e durante o discurso existencial de cada pessoa. 

Se pensarmos na história das terapias, a concepção hegemônica, até meados do anos 1990, com o aparecimento da Filosofia Clínica, era de uma divisão ou fatiamento do fenômeno humano em consciente/inconsciente, razão/emoção, diagnósticos, curas, loucuras...

A compreensão da pessoa a partir de sua historicidade, com sua organização interna singular, concede um olhar que alarga o horizonte existencial, deixando entrever múltiplas possibilidades para existir. Bem depois das tipologias, classificações, medicação psiquiátrica, até então oferecidas como única alternativa a questão existencial em momentos de desestruturação, ainda resta algo na invisibilidade dos rascunhos existenciais 'tratados sob a ótica da cura'.    

Jacques Derrida ajuda a pensar: "(...) o relevo e o desenho das estruturas tornam-se mais visíveis quando o conteúdo, que é a energia viva do sentido, se encontra neutralizado" (A escritura e a diferença, 2005).

Noutras palavras, é possível vislumbrar a ideia de estrutura de pensamento, tendo como pano de fundo seus espaços em branco, os quais poderão ser preenchidos com a chegada de uma pessoa compartilhando suas circunstâncias existenciais, história de vida, sua versão para os eventos que a foram constituindo como um fenômeno irrepetível. Algo incabível num pressuposto metodológico (da tradição) que já traga a priori (antes do seu aparecimento) alguma verdade, desmerecendo a imersão que o sujeito de suas circunstâncias venha a realizar na clínica, como resultante de sua vida até hoje (no caso da Filosofia Clínica). 

Para verificar esse todo (estrutura singular) em movimento, tem-se ao menos duas maneiras de visualização: a) acessar a estrutura de pensamento e a totalidade dos tópicos estruturais, antes de qualquer preenchimento; b) entender os tópicos determinantes a uma pessoa, após a etapa dos exames categoriais, percebendo/sentindo as associações, contradições, e tudo mais que vai surgindo, como resultante das autogenias que a pessoa vai experienciando na clínica. 

Jacques Derrida diz assim: "(...) esse poder de mediação ou de síntese entre o sentido e a letra, raiz comum do universal e do singular " (A escritura e a diferença, 2005).

O ponto de encontro onde a estrutura de pensamento se articula com a singularidade, refaz o casamento provisório entre forma e conteúdo, o qual adquire sua conformação plástica e dinâmica, com o discurso existencial de alguém, qualificando e distinguindo a terapia em Filosofia Clínica. 

Entender a noção de estrutura de pensamento é um fundamento para ampliar a percepção do fenômeno humano, até então prisioneiro de diagnósticos, tipologias, classificações distanciadas da singularidade, por onde cada um se apresenta e reapresenta de acordo com seus desdobramentos existenciais. Um desses lugares onde a vida se anuncia, renuncia, desconstrói, reconstrói, prossegue nas múltiplas possibilidades de suas autogenias, experienciando-se nesses dias por aí.

(...)

Um abraço,

HS