segunda-feira, 16 de abril de 2018

Apontamentos Marginais*


O referencial estruturalista, como um dos fundamentos da Filosofia Clínica, se ampara no discurso filosófico de uma tradição ampliada, ou seja, sua trama conceitual serve de anteparo para várias áreas do conhecimento: antropologia, sociologia, medicina, filosofia, literatura...

Nessa direção é possível encontrar autores considerados estruturalistas qualificando sua retórica metodológica em múltiplas direções como: Jacques Derrida na Filosofia, Roland Barthes na Literatura, Michel Foucault na Política, Medicina, Direito, Claude Lévi-Strauss na Antropologia, Sociologia...

Talvez a maior contribuição do estruturalismo, no que se refere a Filosofia Clínica, seja a sua noção de uma totalidade em movimento. Uma estrutura na qual é possível vislumbrar tópicos que conversam entre si, mantém determinada relação (positiva, negativa, mista, indeterminada) a qual se modifica ao longo da vida, em função dos desdobramentos existenciais de cada pessoa.

Roland Barthes contribui: "O objetivo de toda atividade estruturalista, seja ela reflexiva ou poética, é reconstituir um 'objeto', de modo a manifestar nessa reconstituição as regras de funcionamento (as funções) desse objeto. A estrutura é pois, de fato, um simulacro do objeto, mas um simulacro dirigido, interessado, já que o objeto imitado faz aparece algo que permanecia invisível, ou, se se preferir, ininteligível no objeto natural" (Crítica e verdade, 2011).

Um método é pensado, elaborado, aperfeiçoado, para funcionar como um intermediário entre um sujeito e um objeto, no caso da Filosofia Clínica entre dois sujeitos: Filósofo e Partilhante. A partir desse instrumental ou referência teórica, aquilo até então desconsiderado ou invisível ao olho nu das percepções até então consagradas, se mostra num olhar ampliado, qualificando a janela epistemológica até então conhecida, oferecida, às práticas científicas, em nosso caso: Ciências Humanas!

Inicialmente o Partilhante, ao descrever comportamentos, atitudes, pensamentos, através dos exames categoriais, vai preenchendo as lacunas de não saber, que é uma referência inicial do trabalho do Filósofo Clínico. Essa atividade pressupõe observação, escuta, acolhimento, compreensão... como pressupostos preliminares da terapia.    

Um mapa da subjetividade vai se oferecendo ao olhar clínico, tendo como fonte de matéria-prima as narrativas da história de vida, com base noutra matriz de fundamentação teórica que é a fenomenologia, ou seja, uma percepção descritiva (sem interpretação) sobre os conteúdos da fala e expressividade do Partilhante. 

A ideia de um molde como simulacro, concede a oportunidade de acolher o fenômeno da singularidade, levando em conta que o Partilhante, ao mesmo tempo possui uma condição humana universal e uma singularidade que ficaria inacessível, a partir das classificações conhecidas, não fora o reconhecimento e a visibilidade através da noção de estrutura de pensamento, a qual permite enxergar ingredientes até então insuspeitados pela ciência normal. Um exemplo disso: a noção de síndromes ou patologias envolvendo razão e emoção, uma dupla fundamental nas análises e práticas psicológicas, psiquiátricas, psicanalíticas...

O conceito de estrutura de pensamento ampliou significativamente essa janelinha, ao conceder um olhar diferenciado ao fenômeno da singularidade, elencando 30 tópicos estruturais (interagindo entre si), sendo alguns deles predominantes em cada pessoa, alargando os horizontes existenciais até aqui reconhecidos. 

Roland Barthes: "(...) o estruturalismo é essencialmente uma atividade, isto é, a sucessão articulada de certo número de operações mentais" (Crítica e verdade, 2011).

Nesse sentido, pensar os deslocamentos da autogenia, através dos tópicos da estrutura de pensamento determinantes ao devir partilhante, suas causas, funções, a maneira como suas crises e dores existenciais vem se estruturando no seu dia-a-dia, permite ultrapassar os vislumbres da sucessão de assuntos imediatos, enquanto o assunto último permaneceria intocado (favorecendo diagnósticos, prognósticos distanciados da verdadeira causa do sofrimento, somatização...), não fora seu entendimento, acolhimento, tratamento a partir do mapa elaborado na construção compartilhada da terapia em Filosofia Clínica.

(...)

Um abraço,

HS